Patent

Não lembro de onde surgiu, mas alguém na aula do curso de férias makers perguntou e falamos sobre patentes. E precisei explicar para uma menina de 11 anos o que era e pra que servia.

Não cabia na aula discutir sobre patent trolls ou a guerra fria das patentes. Mas explicar o conceito básico sobre o que era, para que servia e por que as empresas criavam patentes.

Fácil, você pensa.

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A lógica simples é incentivar a inovação. A patente protege seu investimento, tornando atrativo que você continue investindo para criar novas soluções.

Mas antes de explicar os motivos, cometi o erro (e a sorte) de explicar o que era a patente.

O interessante é que a patente não dá o direito do seu dono para usar aquela solução. A patente é o direito que ele tem de não permitir que os outros usem aquela solução. Parece um jogo de palavras, mas essa diferença sutil é muito relevante.

E isso dá um nó na cabeça de algumas crianças. E neste nó, as perguntas que vieram em seguida eram altamente complexas.

Se descermos do arrogante pedestal de acharmos que a dificuldade de entender vem da inocência ou inexperiência talvez exista algum aprendizado.

Olhando apenas do ponto de vista prático, sem ideologias, é preciso explicar a regra do mercado capitalista. Mas, porém, contudo e todavia, não posso estabelecer isso como uma regra absoluta e moldar na cabeça da criança que é esta a regra do jogo.

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Não podemos esquecer que estamos em momento de transição. E se esta transição durar 10 anos, será exatamente quando esta menina estará entrando no mercado de trabalho.

Indignada e confusa, afirmou que a empresa é melhor que as outras, não é preciso proibir. E se ela não é melhor, ter o poder de proibir os outros não é bom.

É neste momento que a nossa arrogância poderia dar risada de sua inocência. Sabe de nada, inocente.

Porém, esta semana uma matéria no The Verge jogou parte dessa lógica na nossa cara. Mostrou que a Apple conseguiu abocanhar cerca de U$ 700 milhões da Samsung na eterna briga contra o suposto plágio, mas que este ano, depois que a Apple lançou a última versão do iPhone, a Samsung amargou uma queda no lucro de mais de U$ 6 bilhões, enquanto a Apple teve um lucro recorde e, segundo especialistas, hoje detém mais de 92% do lucro da categoria. Claro que esta análise é superficial, mas a conclusão óbvia que fica clara é que o litígio se provou uma tolice para a Apple.

E vale lembrar que uma das empresas que mais ganha dinheiro com o Android é a Microsoft, cuja contribuição para inovação neste mercado…

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Do seu jeito, mesmo com dificuldades de usar termos técnicos, algumas das frases que escutei da menina de 11 anos lembram muito a explicação que Elon Musk deu ao liberar as patentes da Tesla Motors para seus concorrentes.

Estamos viciados em uma visão antiga. As vezes é preciso uma criança para nos lembrar disso.

A discussão sobre patentes é apenas um exemplo disso.

Me lembra da dificuldade que tive várias vezes para explicar a algumas pessoas como o Creative Commons é uma maneira de proteger o conteúdo e não abrir mão dele.

No último Makers Master (o de adultos), discutimos como o mindset de empresas como Google, Facebook, Tesla, etc. não fazem o menor sentido para as empresas tradicionais. É uma discussão mais longa, mas basta dizer que algumas destas empresas estão economizando bilhões — e bilhões não é hipérbole — criando soluções open software ou open hardware, ou seja, uma “patente” que permita que elas usem o que criaram, mas não proíba os outros de fazer o mesmo.

Não porque são boazinhas, mas porque faz sentido. E não vejo ninguém falar sobre isso. Nem os grandes gurus do management, nem a mídia, nem ninguém.

No curso discutimos os porquês disso e em que situações isso faria sentido. Não é uma verdade absoluta a ser seguida de forma cega e binária.

Mas a lógica que seguimos hoje também não.

Ricardo Cavallini

Fundador do Makers Brasil.

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