Cruzeiro

Nos últimos dois anos, falei com muita gente explicando por que o movimento Maker (ou qualquer que seja o nome bonito para este momento que vivemos) era tão importante para o Brasil e por que permitiria ao país realizar um leapfrog.

Discuti o assunto com centenas de alunos que recebemos no Makers. Em mais profundidade com os alunos do Makers Master, que são mais seniores. Falei com ministros, executivos e muitos empresários dos mais diversos segmentos.

Uma enorme arrogância da minha parte achar que poderia ter capacidade ou estofo para opinar sobre a estratégia correta para o Brasil.

No final do mês passado, a Secretaria de Estratégia divulgou um documento e descobri que não era o único a ter esta linha de raciocínio. Apesar de fazer bem ao ego, não vejo genialidade nenhuma nisso. Apenas pertinência que a inovação tem neste momento, um assunto que vivencio, estudo e trabalho há décadas. Esta semana descobri um vídeo do Ministro Mangabeira Unger (que pediu demissão esta semana).

Unger é muito mais inteligente e articulado que eu, mas como a maioria dos acadêmicos, seu discurso é muito chato, pelo menos para quem também não é acadêmico. Talvez por isso, a platéia pareça estar com sono, mas considero que é um dos discursos políticos mais honesto, direto e importante que escutei no Brasil nas últimas décadas.

E por isso resolvi transcrever o que eu considerei que é o raciocínio principal e que dá coro com o que tenho defendido nestes últimos 2 anos.

Um texto longo, mas ainda assim acho mais provável que vocês leiam isso do que ver o vídeo com mais de 1 hora de duração.

A seguir, a transcrição da parte que eu acho que importa do vídeo.

O modelo de desenvolvimento atual

O modelo de desenvolvimento atual é baseado primordialmente na produção e exportação de commodities e na massificação do consumo.

Conseguiu grandes resultados, resgatando milhões de brasileiros da pobreza extrema, ampliando o acesso ao consumo e permitindo em circunstancias — então favoráveis — uma taxa de crescimento razoável.

Enquanto o preço do commodity estava alto, o nosso mercado principal (a China) crescia rapidamentee e havia dinheiro fácil abundante no mundo, as fragilidades desse modelo permaneceram ocultas. Agora que as circunstancias mudaram, a fragilidade ficou exposta.

E a fragilidade mais importante é que este modelo conviveu com nível muito baixo de produtividade na economia brasileira. Nós mantivemos a maioria dos brasileiros empregados mas em empregos de baixíssima produtividade

A eficácia dessa política já se exauriu.

O ajuste fiscal

E ai chegamos ao momento atual, como devemos entender o ajuste fiscal.

Há duas narrativas, a primeira é a doutrina da confiança financeira, onde o ajuste é necessário para gerar confiança.

A confiança traz investimento e o investimento traz crescimento. Isso não funcionou em nenhum lugar.

Há uma outra narrativa do ajuste fiscal. A que ele não é para ganhar a confiança financeira.

É necessário pela razão inversa: para não depender da confiança estrangeira.

De acordo com esta visão, o ajuste fiscal é apenas um preliminar. Existe uma ponte do modelo antigo com o modelo novo a ser construído.

Um novo paradigma de produção

Nenhum dos problemas fundamentais da sociedade contemporânea pode ser resolvido ou se quer encaminhado dentro dos limites das instituições estabelecidas inclusive dentro das instituições de definem a economia de mercado.

No século 19, o setor mais avançado (manufatura mecanizada) serviu como modelo que propagou em todos os setores da economia, inclusive a agricultura.

Temos no mundo um novo paradigma de produção: produção flexível, descentralizada, densa em conhecimento e organizada por redes de relações contratuais.

Não há como resolver isso sem inovar nas instituições que definem a economia de mercado

Há de haver uma nova divisória na política brasileira: entre os que querem e os que não querem inovação estrutural.

Inclusive inovação nas formas institucionais da economia de mercado e da democracia.

A democratização da economia de mercado, a construção de uma democracia de alta energia e a capacitação do brasileiro.

O pacto social atual

A forma contemporânea e atual do pacto social desenvolvimentista tem 3 posições.

  1. Lá em cima, as classes endinheiradas recebem o credito subsidiado (por exemplo do BNDES).
  2. Lá em baixo, as classes mais pobres, recebem o beneficio do gasto social (e quantitativamente muito menor).
  3. E no meio, a classe media (a tradicional e a nova classe media mestiça morena) não recebem nada, a não ser o acesso ao novo mercado de consumo em massa.

Esse é o pacto atual.

Constrói uma retórica fantasiosa que ornamenta e ofusca a verdadeira realidade do compromisso social.

Neo Liberal

Existe uma segunda posição, chamada de liberal ou neo liberal

O objetivo dela é desmontar esse pacto.

E qualquer que seja a motivação dos que simplesmente querem desmontar o pacto
para estabelecer no brasil uma imitação mais perfeita de economia de mercado que existe, por exemplo, nos EUA.

Na realidade, o objetivo seria simplesmente promover os interesses do dinheiro
sem beneficio das maiores pobres do país.

Uma nova estratégia nacional

A estratégia nacional exige uma revolução na educação brasileira, cuja qualidade permanece calamitosa. A qualificação do ensino básico.

Exige um produtivismo includente.

O que esta estabelecido hoje é o fordismo industrial. Baseado  na produção em grande escala de serviços padronizados, mão de obra semi especializada e relações de trabalho muito hierárquicas e especializadas.

Este fordismo tardio brasileiro alcançou excelência, mas agora ficou imprensado entre economias de trabalho barato e economias de produtividade alta.

A nova produção é despadronizada, com inovação permanente e conhecimento denso.

É a produção como experimentalismo, baseado em tecnologias como por exemplo a impressão 3D.

O Brasil todo não deve ter que primeiro virar a SP (do passado, do fordismo industrial) pra depois virar outra coisa.

No resto do mundo, as grandes empresas são cercadas por uma penumbra de empresas menores e é nesta penumbra que ocorrem as inovações radicais.

A nós (Brasil) nos falta esta penumbra. Temos uma vasta multidão de pequenas e médias empresas mas quase toda a totalidade delas esta afundada em um produtivismo produtivo

E mesmo as nossas maiores empresas costuma ter um espectro de tecnologias estreito.

Novas relações de trabalho

Precisa haver um choque de ciência e tecnologia.
O destinatário mais importante é essa empresa pequena e media vanguardista.

E o desenho não pode focar o crédito subsidiado, mas sim ao acesso a tecnologia e práticas avançadas.

Devemos criar um modelo novo, diferente do modelo do nordeste asiático e dos EUA. Precisamos de um terceiro modelo. Nem tão vertical nem tão horizontal.
Ao lado desse empreendedorismo vanguardista, outro lado do produtivismo includente.

Tem a ver com relação entre o capital e o trabalho.

Nos últimos anos o Brasil diminuiu a informalidade (de 60% para 40%), mas dentro da economia formal aumentou a precarização. O número de pessoas que estão em trabalho terceirizado, temporário ou auto emprego sem a proteção eficaz das leis.

É uma variante brasileira que está ocorrendo em todo o mundo. Novas praticas produtivas e novas relações de trabalho. Práticas onde o trabalho passa a ser organizado em redes contratuais descentralizadas.

Não adianta negar essa realidade, não há como revertê-la

Ela não é resultado apenas de evasão fraudulenta das leis trabalhistas, ela é a expressão de uma mudança profunda nas praticas de produção.

Precisamos criar um novo direito para governar estas relações de trabalho.

Uma terceira posição

Além do pacto social atual e do neo liberal existe uma terceira posição

Esta posição não existe no debate atual.

Seria desmontar o pacto nacional desenvolvimentista em favor de uma reorganização institucional democratizante e includente do acesso as oportunidades econômicas e educacionais.

Não é possível sem inovação radical nas instituições econômicas e políticas.

Há uma semelhança com a posição neo liberal com respeito a iniciativas concretas.

Os adeptos a segunda e terceira posição poderiam convergir a uma seria de políticas públicas.

Fazer oposição ao dualismo do mercado de crédito subsidiado para 20 grandes empresários bem relacionados com o Estado brasileiro e financiadores das campanhas eleitorais e dinheiro mais caro para todos os outros.

Outro exemplo, a questão da liberdade para importar tecnologias avançadas. Poderiam concordar também os defensores da segunda e terceira posição.

Transformação radical do sistema tributário.

Mas nós não temos esse debate no Brasil. E ele é indispensável para pensar o novo rumo do país

Ricardo Cavallini

Fundador do Makers Brasil.

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