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Todos dizem que dados são o novo petróleo, mas o correto seria comparar ao ouro. Melhor dizendo, a Corrida do Ouro, quando os índios (no caso, nós) foram vítimas de doenças, fome e ataques genocidas.

E a grande sacanagem está no fato da legislação não ser técnica o suficiente para evitar o uso incorreto dos dados, ainda que estas empresas não estejam fazendo nada ilegal, elas estão permitindo o uso dos dados da maneira mais calhorda que existe.

Eu explico. Assim como aconteceu com o Facebook, as empresas dizem que cumprem a legislação vigente. O que elas não dizem é que os dados não estão vazando, estão sendo vendidos através de uma manobra técnica.

Funciona assim:

Uma farmácia pode repassar um desconto dado pelo convênio médico como benefício para seus clientes. Ela informa os CPFs que fizeram a compra como forma de prestar contas. Ela não passa mais nenhuma informação além do CPF e do valor que aplicou de desconto. É uma simples prestação de compra. Não informa qual remédio, qual o nome da pessoa nem nada mais.

Uma operadora de telecom pode usar a localização de seus clientes para mostrar um banner do anunciante. Ela não envia para o anunciante nenhum dado que ela tem do usuário.

Um aplicativo na rede social diz qual Spicy Girl você seria, e para isso ele usa algumas informações do seu perfil mediante sua autorização. A rede social permite isso para viabilizar uma interação mais rica, mas sem vazamento de dados. Você permitiu o uso apenas para esse aplicativo apenas para descobrir se você era a Scary, Sporty Ginger, Baby, Ginger ou Posh.

Tudo lindo, tudo certo, tudo dentro da lei. Todo mundo feliz. Mas, porém, contudo, todavia….

O convênio médico usa o valor do desconto para descobrir qual remédio foi comprado. Com o CPF identifica o cliente. Com esta informação pode categorizar clientes em grupos de risco e mudar valores de plano.

O aplicativo da rede social guarda todas as informações em sua própria base, cruza com a informações de outros aplicativos e com isso consegue extrair da rede milhares de informações para uso próprio… na própria rede, inclusive extrapolando para perfis similares.

No caso da empresa de telecom e muitas outras empresas que fazem anúncios baseados em perfis e atidudes (compra, local etc.), o problema também existe.

Isso acontece porque não se faz mais propaganda sem aferição. E para aferir os dados, anunciantes exigem que cada anúncio carrege junto uma série de códigos para verificar um monte de coisa (se foi visto, por quanto tempo etc.)

Estes códigos estão em diversos outros anúncios, inclusive no aplicativo de celular e no site do próprio anunciante. Assim, uma seguradora pode descobrir que seu cliente 1345 visitou a Cracolândia 5 vezes no último mês e tomar decisões em cima disso.

Agora amplie isso para dezenas de milhares de pessoas. No caso da Cambridge Analytica, eles colheram dados de 87 milhões de usuários do Facebook. Só de brasileiros, foram quase 500 mil.

Por aqui, o ministério público está investigando casos de grandes empresas cujos números também estão na casa de 70 ou 80 milhões de pessoas.

E não estamos nem falando sobre a orgia de dados propriamente dita. Quer um exemplo? Uma mulher da minha familia está se aposentando. Assim que deu entrada no processo, um monte de parentes (marido, filha, mãe etc.) começaram a receber SMS se dizendo de um grande banco e oferecendo linha de crédito. Detalhe: tirando a filha, as outras pessoas não moram no mesmo local e os telefones estão sob outros CPFs. A única coisa em comum é o parentesco mesmo.

Entendo que o facebook esta sendo usado para influenciar votações e isso é extremamente grave, mas se é para discutir o uso de dados de forma ilegal, imoral e anti ética, temos bastante coisa para falar. Se a Netflix fizer uma série sobre isso, o Brasil teria assunto para umas 10 temporadas.

O caso do Facebook pode ser um grande marco para esta discussão acontecer, mas no Brasil, o problema é antigo e rotineiro.

A legislação atual não garante nosso conhecimento, muito menos controle. Está na hora de rever isso. Finalizo com um parágrafo que publiquei em um dos meus livros há mais de 10 anos, uma análise que acredito ajudar nesta discussão:

“Em um mundo conectado, onde tudo é gravado e nada é deixado de lado, ninguém será anônimo. Saberão quem somos, do que gostamos, onde estamos, quando e muito mais. Não teremos mais escolha sobre quem captura informação sobre a gente, pois todo mundo capturará informações. O importante será saber quem capturou, com qual propósito, sob quais circunstâncias e como vai usar essa informação. O conceito de privacidade vai mudar. Hoje, privacidade é o direito de permanecer anônimo. Amanhã, privacidade será o controle sobre a informação que nos identifica e nos descreve.”

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