Hugh-Herr

Hugh Herr é um gênio. Não, não desse desse tipo que cria iPods, iPhones e tudo mais. Digo, não desse tipo que revoluciona indústrias.

Herr escala pedras. Aos 8 ele já havia escalado um monte com 3544 metros. Aos 17, já era reconhecido como um dos melhores escaladores dos EUA.

Até que um dia, em um daqueles “repentes de má sorte” que costumam acontecer com frequência com pessoas que desafiam a vida todo dia, Herr perdeu suas pernas.

Porém, diferente de Aron Ralston — aquele cara do filme 127 horas estrelado por James Franco —, cuja parte “mais interessante” da história é o acidente em si, o que interessa na vida de Herr veio depois disso.

Herr está revolucionando a indústria de próteses e componentes biônicos.

Mas calma, eu já explico porquê. Eu soube de sua existência assistindo sua palestra no TED. O TED é cheio dessas histórias maravilhosas. De pessoas que estão mudando o mundo. De pessoas que acreditaram em algo e, como dizem por aí, sem saber que era impossível, foram lá e fizeram.

E acho que aí tem um gancho para ajudar a explicar porque acredito tanto na história do movimento makers. O que essas pessoas têm em comum? É a genialidade? É a inteligência? É a força de vontade? É Jesus no coração?

Na minha não humilde opinião, não é nada disso.

Veja, não estou desmerecendo essas pessoas. Elas são sim geniais, podem ter Jesus no coração e tudo mais. Eu só não acredito que algum desses seja o componente chave.

Acredito que o componente chave é a NECESSIDADE. No caso de Herr, isso é bastante óbvio, mas em muitas outras histórias esse componente também transparece de uma forma ou de outra. As vezes a necessidade é física, as vezes política, ideológica, psicológica. Não importa.

E, sem querer entrar em uma discussão profunda e filosófica, essa capacidade de ir além, de resolver problemas novos, de buscar soluções, enfim, essa capacidade de evoluir é uma das melhores formas de diferenciar o homem dos animais.

Ok, alguns diriam que também temos uma enorme capacidade de criar problemas novos, mas isso fica para outra discussão.

O importante é que, buscar soluções — das mais fúteis as mais importantes; das mais fáceis as mais complexas — é algo natural do ser humano. E, ainda bem, algo que somos capazes.

Hugh-Herr

E, se temos essa capacidade maravilhosa de evoluir,o que poderia acelerar (ou desacelerar) esta evolução?

E, se temos essa capacidade maravilhosa, o que poderia acelerar (ou desacelerar) esta evolução? Acredito que é um equilíbrio entre duas forças, a NECESSIDADE e a DIFICULDADE.

Mas esse é o jeito “copo meio vazio” de descrever. O “meio cheio” seria usar INCENTIVO (no lugar de necessidade) e POSSIBILIDADE (no lugar de dificuldade).

E, apesar da nossa timeline do Facebook nos provar o contrário 😛 estamos sim evoluindo. E esta evolução tem sido exponencial. Sabe aquele sensação de que as coisas estão mudando e acontecendo mais rápido?

Elas estão. Se olharmos historicamente, as coisas melhoraram sim. Se você duvida disso, indico The Singularity Is Near, de Ray Kurzweil. Ele é mais competente que eu para um monte de coisas, inclusive provar isso.

Mas se a evolução está acontecendo (e mais rápido), porque muitos de nós acreditamos justamente no contrário? Porque ser pessimistas é uma manobra humana para sobreviver, faz parte do instinto de sobrevivência. Ser pessimista é ficar sempre atento.

Se minha lógica estiver correta (estarmos evoluindo e, mais rápido) é porque existe um desequilíbrio nas duas forças (incentivo e possibilidade).

Será que foi o incentivo que aumentou?

Não. Pelo contrário. Nossa vida está cada vez mais confortável. Não caiam na loucura de entrar na discussão sobre pobres e ricos, esquerda, direita, Corinthians e Palmeiras. A vida está melhor para o ser humano. Ponto. Se você duvida disso, indico Abundance de Peter H. Diamandis. Sim, ele também é mais competente que eu.

Então sobrou uma possibilidade. O que mudou não foi o “incentivo”, foi a “possibilidade”.

Hugh-Herr

Hoje é “mais possível”. O acesso a informação, as ferramentas, a tecnologia, o dinheiro, as pessoas em rede, tudo isso facilitou demais a sua chance de criar algo, de realizar algo. A palavra chave é ACESSO.

O cara que inventou o automóvel não começou do zero. Começou bem antes, com Leonardo da Vinci fazendo triciclos movidos a corda.

Se alguém inventa um novo hardware, ou lança um curso online, ou uma ferramenta de financiamento coletivo, ou qualquer outra coisa que traga acesso (a ferramentas, conhecimento, dinheiro etc.), imediatamente torna mais fácil para os outros 7 bilhões de pessoas.

Agora volto para questão do ser humano resolver problemas e  para Hugh Herr. Tem uma afirmação que ele fala mais de uma vez em sua palestra:

Humans are not disabled.
A person can never be broken.
Tecnology is broken.

Não é o ser humano que está quebrado, é a tecnologia.

É um jogo de palavras, uma frase bonitinha. Uma frase de efeito.

Sim, o TED também está cheio delas.

É.

Não.

Espera. Para tudo. Porra.

Porra.

Porra!

Não sei se passou batido para vocês. Na minha cabeça deu um nó. É uma das coisas que mais faz sentido pra mim.

Tá, já escutamos “a tecnologia a serviço da gente” e um monte de outras coisas parecidas. Eu mesmo falei no começo do texto a história sobre incentivo ser uma das forças da evolução.

Mas isso é diferente. O que Herr diz é de uma profundidade absurda. É uma maneira diferente de olhar. É novo.

Bom, pelo menos até que alguém me mostre que alguém tenha dito isso em 1800 e bolinha.

Ter uma visão nova (e consistente) sobre as coisas é algo absolutamente raro. Valeu o meu tempo pensando nisso. Acredito que deveria valer o seu também.

Ok, mas qual a relação disso com Makers?

É total. Está mais fácil criar soluções. O que ele está fazendo é incrível. É tipo the fucking cutting edge of mother fucker technology. Sim, mas ao mesmo tempo, é algo que não parece mais impossível.

E não é.

Está mais fácil resolver problemas. E a quantidade de pessoas criando soluções será exponencial.

Alguém pode olhar para a saboneteira e ter uma ideia de como melhorá-la. Executar essa ideia está mais fácil. E olhe só, essa pessoa pode revolucionar a indústria de saboneteiras.

Hugh-Herr

Saboneteria? Estou comparando a falta de pernas de Herr com saboneteiras? Como eu tenho coragem de usar o discurso do Herr para falar de sabonetes? Herr não está falando de produtos. Está falando sobre a dignidade humana. Porco capitalista de merda eu.

Calma. Antes de me odiar. Pense.

Ambos, na essência, são a mesma coisa: solução.

Sim, com um gap enorme de importância Tipo Beatles e Justin Bieber. Tipo ir a Lua e correr a São Silvestre.

Mas lembre-se, não é o incentivo que está mudando. São as possibilidades.

A beleza disso é que não precisamos escolher entre uma nova saboneteira e algo que torne a vida das pessoas mais digna, mais justa… mais humana.

O ambiente está mais propício para solucionarmos problemas. Os mais fúteis, os mais fundamentais e todos os outros que estão entre esses dois extremos.

Você pode inclusive começar achando que vai fazer uma saboneteira nova e acabar inventando algo que mude o mundo. Você não imagina quanta coisa surgiu assim. O post-it, o raio-x, a batata chips, o picolé, o sucrilhos, o adoçante, o teflon, o viagra, o LSD, a penicilina… Bem, você me entendeu.

E não deixe de ver o vídeo do TED.

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